O Manuscrito do purgatório- Últimos ensinamentos



Últimos ensinamentos
Que a fé prática anime todas as vossas ações. Que vossa confiança e amor vos faça empreender tudo quanto Ele exige de vós. Dizei cada manhã ao levantar: “Meu Jesus, eis-me aqui para cumprir a vossa santa vontade; que quereis que eu faça hoje para vos agradar?”
Fazei todos os exercícios de piedade sob o olhar de Jesus, e com muito amor. Só se pode fazer bem às almas na medida da união com Deus.
Deus procura almas que reparem os ultrajes que Ele recebe, que o amem, e que o façam amar. Ele vos quer neste número.
Jesus, antes de conceder a uma alma uma união íntima com Ele, a purifica pela provação, e quanto maiores desígnios tem sobre esta alma, tanto mais a prova é maior.
Fixai vossa morada habitual no Coração de Jesus. Que o amor seja a cadeia que una vosso coração àquele Coração adorável. Vosso coração tão miserável se purificará, se há de desapegar ao contato com um Coração tão puro!
Ide buscar no Coração de Jesus o que necessitais para vós e para os outros. Ele nada vos há de recusar.
Os sofrimentos do coração são bem mais penosos que os do corpo. Para uma alma que ama a Jesus, a dor maior é magoar a Jesus por suas ingratidões e pecados.
Pedi ao Coração de Jesus força de alma necessária para que Ele cumpra em vós seus desígnios.
Para fixar o espírito na presença de Deus, tomai cada dia uma das catorze estações de Nosso Senhor na Paixão e pensai bastante nela. Jesus gosta que nos lembremos do que Ele sofreu por nós. Nos dias de festa tomai um dos mistérios gloriosos, a Ressurreição, a Ascensão. Pensai também muitas vezes na Eucaristia, e na vida oculta de Jesus no tabernáculo. Lá, sobretudo, é que haveis de ver o seu amor. Ficar sozinho sem adoradores, na maior parte das igrejas do mundo! Esperar em vão que alguém venha lhe dizer: eu vos amo!
Tudo passa, e passa depressa! Não tenhamos tanta preocupação pelas coisas que um dia hão de se acabar! Olhemos sempre o que nunca mais se há de acabar. Por nossas ações santas e unidas a Jesus, embelezemos nosso trono no céu. Façamos o nosso trono mais alto, alguns degraus mais próximo daquele que havemos de contemplar e amar por toda a eternidade. Eis qual deve ser a vossa ocupação na terra.
LEMBRANÇA
 (2 de Novembro de 1890 – Última bênção do mês do Rosário)
Vou procurar fazer com que entendais quanto possível o que é o céu. Festas e sempre novas, que se sucedem sem interrupção, uma felicidade sempre nova e que a gente nunca sentiu. É uma torrente de alegria que transborda sem cessar sobre os eleitos. O céu é principalmente Deus, Deus amado, sentido, provado; é uma saciedade de Deus sem se poder saciar nunca!
Quanto mais a alma amou a Deus na terra, tanto mais atinge o cume da perfeição, tanto mais compreende o céu!
Jesus é a verdadeira alegria da terra e a eterna alegria dos céus!


O Manuscrito do Purgatorio- 1886/1887

1886


(Maio) – Para a alma religiosa é preciso o espírito de sacrifício, o espírito interior, a pureza de intenção. Eis a síntese da vida religiosa.
Uma religiosa pode aliviar as almas de seus parentes defuntos com as ações todas praticadas com grande pureza de intenção e muito mais do que pelas orações.
A alma mais querida de Jesus é sempre a mais crucificada na terra, mas a cruz enviada por Jesus tem doçuras misturadas com as amarguras. Há cruzes que vêm por nossa culpa, e nestas ficam só as amarguras.
1887
(Fevereiro) — Jesus não mostra à alma tudo quanto exige dela assim de unia vez. Ela se assustaria. Porém, pouco a pouco a torna mais forte e lhe descobre seus segredos e a torna participante da cruz.
(24 de Junho) — Ficai bem unida a Jesus. Antes de qualquer ação, consultai-o. Sempre de coração a coração, como a um amigo que se tem sempre perto.
Jesus quer vossa alma toda inteira com todas as suas faculdades, todas as potências; vosso coração com todas as ternuras, todo o vosso amor. Tudo haveis de buscar na fonte daquele divino Coração que nunca se esgota. Eis como deveis proceder como esposa dedicada.
Durante o dia várias vezes deixai-vos penetrar bem da presença de Deus, recolhei–vos diante de sua divina Majestade, reconhecei vossa miséria, mas também a sua bondade infinita, agradecei-lhe afetuosamente. Podeis falar com Jesus o dia inteiro. É o que Ele espera de vós já há muito tempo.
Se fordes fiel a tudo quanto vos disse, Jesus vos guardará suas comunicações mais íntimas, suas carícias divinas, seu amor de Pai e Esposo amante, e alcançareis tudo quanto lhe pedirdes. Jesus não vos há de recusar nada. Haveis de vos dar toda a Ele e Ele se dará todo a vós.
Deus deseja que este retiro vos ponha no estado que Ele espera de vós há muito tempo. Deus chega aos seus fins por meios a nós desconhecidos. Pois bem, coragem, mãos à obra! Jesus vos concederá graças novas. Correspondei a elas generosamente para vós e para a comunidade. Que vossa vontade seja só uma vontade com a de Jesus.
Pela permissão de Deus nós conhecemos no purgatório o que se passa na terra, neste momento, a fim de que rezemos pelas grandes necessidades, mas nossa oração não basta. Se Jesus encontrasse algumas almas de boa vontade que quisessem reparar e desagravar a Majestade divina ultrajada, seria uma grande alegria para o seu Coração tão amargurado. Estas almas poderiam obter misericórdia, esta misericórdia que para dá-la só quer que o pecador se humilhe. Dizei isto à Madre Superiora.
Todas estas provas Deus as permitiu para vos dar força de alma e fazer triunfar a sua glória, sua justiça e seu amor.
Quando puderdes, fazei uma visita a Jesus e dizei–lhe vossos sofrimentos, alegrias, tudo enfim. Falai–lhe como a um amigo, a um pai, a um esposo.
Não perder de vista a divina presença. Deus vos quer santa e só para Ele. Não vos prejudiqueis. O comum, eis o que Jesus quer de vós!


O Manuscrito do Purgatório- 1882/1883

1882

(Setembro) — Jesus faz muito por vós e fará ainda muito mais no futuro, mas é mister que correspondais às suas graças e sejais sempre bem generosa. As almas que chegam à perfeição que Jesus delas pede, são senhoras do seu divino Coração. Ele nada lhes recusa. Quando chegardes lá, Jesus e vós sereis um só. Tereis os mesmos sentimentos, os mesmos desejos.
Ó, amai muito a Jesus, uni-vos a Ele do modo mais forte que seja possível, com todas as potências de vosso coração. Não vivais nem respireis mais do que o amor de Jesus.
1883
Um ano a mais que se foi para a eternidade! Assim passam todos, todos, uns após outros. Sucedem-se os dias até aquele que põe termo à vida da terra, e começa a vida da eternidade! Empregai bem todos os instantes. Cada um deles pode ganhar o céu e vos evitar o purgatório. Cada uma das vossas ações feitas sob o olhar de Jesus, vos dará um grau de glória a mais no céu, e ao mesmo tempo um grau de amor para Jesus também.
O sofrimento precede sempre o amor e há um grau de amor que só atingem os que sofreram e sofreram muito. Eu vos falo principalmente dos sofrimentos do coração. O maior sofrimento que possa ter uma alma que ama verdadeiramente a Jesus, é não amá-lo quanto ela o deseja.
(Retiro de Maio) – Deus tem muitos meios para chegar aos seus fins, quando Ele quer alguma coisa de especial de uma alma. Este retiro deve ser o começo da grande perfeição a que Jesus vos chama desde há muito.
Com Jesus o que podereis temer? Ele é vosso Pai, vosso amigo, vosso esposo, vosso tudo. Não tem Ele o direito de exigir de sua alma o que Ele queira, sem dizer por quê? É o grande Senhor, é o Senhor de todos. Adorai os seus desígnios e obedecei-lhe cegamente. E’ o que Ele quer de vós. Procurai, pois, trabalhar generosamente para a vossa santificação. Redobrai vossa ternura, vosso amor por Jesus. Amai pelos que o não amam, reparai pelos que o ultrajam, pedi perdão pelos que nunca pensam nisto. Jesus espera tudo isto de vós.
(20 de Maio) — Na terra nos arrumamos ao nosso modo, mas no outro mundo é Deus quem nos arruma ao seu modo.
(Retiro de 29 de Agosto) – Sete horas da noite. Habituai-vos a falar a Nosso Senhor como a um amigo o mais devotado e sincero. Não fazer e não dizer nada sem o consultar. Há vários anos que eu estou vos dizendo isto. Eu falei disto muitas vezes, e hoje torno a repetir. Deus quer que presteis muita atenção nisto e o pratiqueis. Este olhar da alma, sempre fixo em Jesus, para perceber as suas menores vontades, esta conversação divina que Ele quer ter convosco, não vos impedirão de vos entregardes aos trabalhos exteriores. Ao contrário, é impossível conservar–se calma no exterior, se o interior não o está. As paixões interiores se refletem sempre no exterior, e a alma que vigia cuidadosamente o seu interior é também senhora do exterior! Eis o que Jesus pede de vós. Uma vida de fé e de união contínua com Ele, uma vida humilde, oculta, conhecida só dele. Seja Ele tudo para vós. Olhai tudo que vos acontece como outros tantos meios de que Ele se serve para vos unir a Ele e realizar os seus desígnios. Sede generosa, que não vos falte energia… Começai então esta vida de renúncia e de sacrifício, e sobretudo de amor. Achareis a calma e a paz que Ele há muitos anos vos oferece.
Que a santa vontade de Deus seja a base de tudo quanto tiverdes de fazer ou sofrer. Jesus espera muito de vós, muitos sofrimentos do corpo e do espírito, mas também muito amor. Não se pode amar sem que a natureza sofra, já o sabeis muito bem. Já o experimentastes no passado e preparai-vos para o futuro. Deus vos deu tudo que é preciso para sentir o sofrimento mais do que os outros. É uma misericórdia e uma graça a mais. Onde há grandes sacrifícios a fazer, há grandes méritos. Sede bem generosa. Pôr de lado o “eu” a Jesus adianta! Pensai muitas vezes nisto: se quereis que vossas ações agradem a Jesus, é preciso que em cada uma delas haja sempre um pequeno sacrifício, alguma coisa que custe.


O Manuscrito do Purgatório- 1880 parte II

1880 Parte II

(Novembro) — Eis que para todas acabou–se o retiro, mas, para vós ele continua. Continuai o vosso retiro sempre, durante todo o ano em vosso coração. Ainda mesmo em meio das maiores ocupações, tende sempre um lugarzinho reservado onde vos recolhereis no coração, e com o coração de Jesus, e lá não o perdereis nunca de vista.
O retiro foi muito agradável a Deus, e muito proveitoso às almas. Jesus vê com prazer as almas religiosas que se voltam para Ele e o procuram como único fim. Para isto é que Ele as chamou para o seu serviço, mas como é fácil na terra esquecer-se a gente mesmo do que é mais sagra-do! Um bom retiro ajuda as almas a retomarem o fervor primitivo. É o que se fez no retiro que acabais de ouvir. Este retiro consolou muito o Coração de Jesus.
Que são estes poucos instantes que passamos na terra comparados com a eternidade? Na morte vereis que nunca se fez demais. Sede generosa e não vos escuseis. Vede o fim para o qual vos chama Jesus: a santidade, o puro amor, e depois, caminhai sempre sem olhar para trás.
A cruz, as grandes cruzes, as que trituram o coração, são a herança dos amigos de Deus. Vós queixastes nestes dias a Jesus, porque Ele vos enviou muito sofrimento durante este ano? É verdade, mas por que achais tão pesadas as cruzes? É que não o amais ainda bastante. As cruzes ainda não se acabaram. As que tivestes até aqui são apenas o prelúdio do que vos espera. Não vos disse que teríeis sofrimentos do corpo e do espírito, e às vezes os dois juntos? Não há santidade sem sofrimento. Entretanto, quando deixardes que a graça possa agir livremente e que Jesus possua vossa vontade, e seja o Mestre absoluto de tudo em vós, então as cruzes por mais pesadas que o sejam, não hão de pesar mais. O amor absorverá tudo. Até lá, porém, sofrereis muito, porque não é num instante que a al-ma chega assim a se desapegar de todas as coisas para não agir senão por amor. Jesus vê com muito prazer os vossos esforços. Ó, se Jesus fosse mais conhecido na terra! Mas é tão esquecido! Pelo menos vós, amai-o, crescei sempre neste amor para agradá-lo. Trabalhai sem descanso para chegardes até lá onde Ele vos quer ver.
(16 de setembro) — Como se compreende muito pouco na terra o desapego que Jesus quer de uma alma que deve ser toda dele! Algumas se julgam santas porque experimentam um amor mais sensível do que ordinariamente; mas, todas estas sensibilidades naturais nada são. É mister que a alma se eleve, se desapegue pouco a pouco, de tudo que a cerca, e sobretudo de si mesma, de seu amor próprio, das suas paixões, a fim de chegar à união divina e só Jesus sabe quanto custa à natureza chegar até lá! O coração há de ser triturado a fim de sair dele todo o amor humano, e é difícil! Poucas almas compreendem estas coisas! Vós que compreendeis um pouco de tudo isto, por misericórdia de Jesus, vós a quem Ele tanto ama, entrai corajosamente neste caminho da abnegação e da morte de vós mesma. Voai por cima da terra, e de tudo que vos cerca, para vos abismardes na santíssima vontade de Deus. Não perder de vista esta santa vontade de Deus nem um minuto! Não penseis que com isto não podereis cumprir as vossas obrigações, absorta neste pensamento. Haveis de ver que acontece justamente o contrário. A alma quanto mais unida a Jesus, tanto mais será exata no cumprimento dos seus deveres. Aquele a quem ama fará tudo por ela. Será um com ela. E então, não estará bem dirigida e ajudada no que faz? Quanto bem pode fazer uma alma interior! Aliás, tudo o que se fizer fora disto, é inútil. A alma unida a Jesus tem direito sobre o seu coração, é senhora deste coração e Ele nada lhe recusa.
Refleti bem nisto que vos estou dizendo! Uma só das vossas ações oferecidas para meu alívio, com pureza de intenção, quando estais bem unida a Jesus, me alivia mais do que diversas orações vocais. Quanto mais depressa vos aperfeiçoardes, tanto mais depressa chegareis a me livrar do purgatório.
É verdade que a Madre Superiora sofreu muito nestes últimos dias, mas um dia de grande sofrimento como ela o experimenta algumas vezes, é mais proveitoso para a alma dela e para a comunidade, do que dez dias ou mais de boa saúde, em que pode trabalhar e fazer tudo o que é de seu cargo.
(2 de outubro) — Dizei muitas vezes no dia: “Meu Deus, realizai em mim os vossos desígnios, e dai–me a graça de não pôr obstáculo a vossa vontade! Meu Jesus, eu quero o que vós quereis, como quereis, e tanto tempo quanto quiserdes!”
(3 de outubro — Domingo) — Ó, se vos fosse dado compreender na terra como Jesus é tratado com indiferença e desprezo neste mundo! E não só pelo mundo. Ele é insultado, ridicularizado, mesmo por aqueles que o deveriam amar. É assim que se encontra indiferença nas comunidades, entre religiosos e religiosas, sua gente escolhida! Lá, onde deveria ser tratado como amigo, como Pai, como Esposo, o consideram e o tratam mais como um estranho.
Esta indiferença se encontra também no clero. Jesus é tratado como de igual para igual. Os que deveriam tremer pensando na augusta missão que receberam, a desempenham com indiferença e aborrecimento!
Quantos possuem o espírito interior? Um número muito pequeno. São numerosos no purgatório os padres que expiam a sua vida sem amor e sua indiferença. É preciso que eles expiem pelo fogo e em torturas de todas as formas as suas negligências.
Eis o grande sofrimento do Coração de Jesus: a ingratidão dos seus. E no entanto, o divino Coração está todo transbordando de amor e só quer difundi–lo.
Jesus quer encontrar algumas almas mortas para si mesmas. Jesus derramará nelas ondas de amor mais do que já o fez com ninguém neste mundo. Ó, como Jesus, como a sua misericórdia, como seu amor são pouco conhecidos neste mundo!
Procura–se conhecer tudo, aprofundar–se em tudo, exceto no que traz a verdadeira felicidade, a única coisa verdadeira… Que tristeza!
(14 de outubro — Durante minha ação de graças) – A menor infidelidade da vossa parte, o menor esquecimento, e menor indiferença para com Jesus lhe é mais sensível e mais lhe fere o coração tão bom, tão amoroso, do que uma injúria de um inimigo. Vigiai–vos com grande cuidado, não deixeis passar coisa alguma. Que Jesus possa vir e se achar feliz em vosso coração, para que o consoleis das amarguras e desgostos que recebe no mundo. Procedei com Ele como para com um pai, e o melhor dos pais e o mais dedicado dos esposos. Consolai-o, reparai as injúrias que recebe cada dia. Tomai os interesses da sua glória e do seu Sagrado Coração. Esquecei-vos diante dele, e fazendo assim, vossos interesses se tornarão os seus, e Ele fará mais por vós do que vós com vossas ocupações.
Olhai tranquilamente todas as coisas que vão passando em torno de vós. Que nada vos detenha. Vossa única alegria, vosso único repouso só se encontram em Jesus. Trabalhai só para ele, e seu amor vos dará coragem. Nunca haveis de fazer demais por um Deus tão bom!
Amai tanto a Deus a ponto de nunca adquirir neste mundo o seu amor sem sofrimento e sem mérito. Os sofrimentos da terra são meritórios, não os deveis perder.
Muitas almas do purgatório contam convosco para as tirar do lugar dos seus sofrimentos. Pensai bem nisto e rezai muito por elas de todo coração.

 1881
Os sofrimentos do corpo e do coração são a herança dos amigos de Jesus enquanto estão neste mundo. Quanto mais Jesus tem amor a uma alma, tanto mais a faz participante das dores que Ele sofreu aqui por nosso amor. Feliz a alma assim privilegiada! Quantos méritos não pode adquirir! E’ o caminho mais curto para chegar ao céu. Não tenhais medo do sofrimento, ao invés, amai-o porque ele nos aproxima mais perto daquele que amamos.
Já não vos disse um dia que o amor tornará doce o que vos parece agora tão amargo porque não amais bastante? O meio mais infalível para chegar depressa à união com Jesus, é o amor, mas o amor unido ao sofrimento. Se soubésseis como o sofrimento é bom para alma! São as mais doces carícias que o divino Esposo faz àquela que ama e com quem quer se unir intimamente. Jesus envia à alma que ama, sofrimento sobre sofrimento, penas sobre penas, a fim de desapegá–la de tudo que a cerca… Então pode lhe falar ao coração.
(Abril) — Jesus não vos deixará em paz enquanto não tiverdes chegado à perfeição que Ele quer de vós. Voltai–vos para todos os lados; enquanto a vossa vontade não for uma só vontade com a vontade de Deus, enquanto não fizerdes todas as ações sob o olhar de Deus, não tereis paz nem a calma interior.


O Manuscrito do Purgatório- 1880

(Janeiro) — Noite de Natal — Milhares de almas deixam o lugar da expiação para o céu. Muitas ficaram, e eu sou do número das que ficaram. Dizeis que a perfeição de uma alma é bem longa. É verdade. Estais admirada de que não obstante tantas orações eu ainda fique tanto tempo sem gozar da presença de Deus. Ai! a perfeição de uma alma no purgatório não vai mais depressa do que na terra.
Há algumas almas que só têm alguns pecados veniais a expiar. É um número pequeno o delas. Estas não ficam muito tempo no purgatório.
Algumas orações bem feitas, alguns sacrifícios, as livram em pouco tempo. Porém, quando são almas como eu, e é o caso de quase todas, que passaram a vida quase nula e que se ocupam pouco ou quase nada da sua salvação, é preciso neste caso recomeçar a vida no lugar da expiação, aperfeiçoar a alma de novo, amar, desejar aquele que na terra não amamos bastante. Eis porque a libertação destas almas muitas vezes se prolonga por muito tempo.
Deus ainda me concedeu uma grande graça: a de vir pedir orações. Eu não a merecia e sem isto eu ficaria aqui anos e anos, como a maior parte.
– As religiosas e as outras da mesma Congregação, têm relações entre si?
Resposta: – No purgatório como no céu as religiosas da mesma família não estão sempre juntas. As almas não merecem todas a mesma penitência nem a mesma recompensa. Entretanto, elas se reconhecem no purgatório. Podem também com permissão de Deus se comunicarem entre elas.
– Pode-se receber uma oração, um pensamento de um amigo defunto e lhe dar a conhecer a saudade que se tem dele?
Resposta: – No purgatório como no céu, pode-se fazer chegar até aqui a lembrança e as saudades da terra, mas como vos disse, não são úteis às almas do purgatório, porque elas sabem e conhecem as pessoas que se interessam por elas na terra. Deus permite algumas vezes que delas se possa receber algum conselho, alguma advertência. Assim, o que eu vos disse diversas vezes a respeito de São Miguel, foi da parte de Deus, e também o que vos disse do vosso Pai espiritual. Todas as comissões que me destes, algumas vezes, para o outro mundo, eu as fiz sempre, mas tudo isto está subordinado à vontade de Deus.
– As faltas são conhecidas no purgatório por todos como serão no dia do juízo?
Resposta: – Nós não conhecemos no purgatório as faltas dos outros, exceto quando Deus o permite para certas almas, mas segundo seus desígnios, e isto para muito poucas almas…
– Tendes de Deus um conhecimento mais perfeito do que o nosso?
Resposta: — Ó, que pergunta! Sim, nós o conhecemos muito melhor, e o amamos muito melhor, e também muito mais! Ai! E é isto o que causa nosso maior tormento! Na terra não se sabe o que é o Bom Deus! Fazem dele uma ideia muito estreita; mas nós, ao deixarmos nosso invólucro de carne, de barro, então, nada entrava mais a liberdade de nossa alma. É então, e só então, que conhecemos a Deus, sua bondade e suas misericórdias e seu amor! Depois desta visão tão clara, esta necessidade tão grande de se unir a Deus, a alma tende a se voltar para Ele, e é repelida porque não é bastante pura. Eis o sofrimento!… É o mais duro e mais amargo dos sofrimentos. Ó se nos fosse permitido voltar à terra depois que conhecemos assim ao bom Deus, que vida não haveríamos de levar! Mas… inúteis arrependimentos!… E no entanto, na terra não se pensa nisto e se vive na cegueira!. . . Não se dá importância para a eternidade! A terra é uma passagem onde só se recebe um corpo que por sua vez há de voltar à terra. E só pensam e desejam a terra e não pensam no céu! E Jesus e o amor de Jesus sempre esquecidos!
— No purgatório as almas se consolam mutuamente no amor de Deus, ou cada uma delas é completamente isolada em cada sofrimento?
Resposta: — No purgatório nossa única consolação, nossa única esperança é só Deus. Na terra Deus permite que a gente seja consolada às vezes nas penas do corpo e do espírito por um coração amigo. Se neste coração não encontra ainda o amor de Jesus, as consolações são vãs e perdidas, mas aqui, as almas estão abismadas em Deus na vontade divina, e só Deus pode aliviar a dor que padecem… Todas as almas são torturadas, cada uma segundo a culpa que têm, mas todas têm uma dor comum que ultrapassa as demais: a ausência de Jesus que é nosso alimento, nossa vida, nosso tudo. E estamos separadas dele por nossa culpa!
Depois de uma ação, não é preciso voltar atrás e andar perdendo tempo em examinar se a fez bem ou mal. É certo que é preciso examinar as ações de cada dia a fim de as fazer sempre melhor, mas que isto não seja à custa da tranquilidade da alma. Deus ama muito as almas simples. É preciso ir a Ele com grande simplicidade, boa vontade sempre pronta a se sacrificar por Ele, e lhe dar prazer. Deveis proceder para com Jesus como uma criancinha com sua mãe, confiando na bondade dele, entregando-lhe nas mãos divinas todos os vossos interesses espirituais e corporais, e depois, procurá-lo sempre em tudo, agradar em tudo sem vos preocupardes com outra coisa.
Deus não olha tanto as grandes ações, os atos heroicos, como uma ação simples, um pequeno sacrifício, contanto que estas ações sejam feitas por amor. Quantas vezes um pequeno sacrifício conhecido só de Deus e da alma que o praticou, não se torna mais meritório que um outro muito maior que foi aplaudido! É mister sermos bem interiores para não tomarmos para nós os elogios que se nos fazem.
Deus procura almas vazias de si mesmas, para enchê-las de seu divino amor. Encontra muito poucas. O amor de si não deixa lugar para Jesus. Não deixeis passar nenhuma ocasião de vos mortificar, principalmente no interior. Jesus tem muitas graças para vos conceder na quaresma, preparai-vos por grande fervor e um grande amor. Amai a Jesus, principalmente. Ele é tão pouco amado pelo mundo e é tão ultrajado!
A Santíssima Virgem vos ama muito. Da vossa parte amai-a também de todo coração e procurai glorificá-la o mais que vos for possível.
Nunca chegareis a compreender bem a bondade de Deus. Se alguém refletisse bem algumas vezes, seria suficiente para ficar santo; mas neste mundo não se conhecem bem a misericórdia e a bondade do coração de Jesus! Cada um as mede segundo o seu modo de ver, e esta maneira é defeituosa. Daí vem que se reza tão mal!
Sim, poucas pessoas sabem rezar como Jesus o quisera. Falta-se à confiança, e no entanto, Jesus só nos ouve depois do ardor dos nossos desejos e na medida do nosso amor. Eis porque muitas vezes as graças que se pedem ficam sem efeito.
É preciso ver tudo como provindo da bondade de Jesus: o que aflige como o que consola. É o amor que tudo faz para nosso bem, o bem dos seus amigos, Deus quer de nós principalmente amor e que luteis assim contra vós mesma, contra vossas más inclinações, e procedeis com espírito de fé. Pois bem, a fé cederá à realidade. É mister proceder como se Jesus estivesse sempre presente. E que isto vos seja uma coisa natural, apesar de ser tão sobrenatural!

— As promessas feitas em favor daqueles que rezam o terço de São Miguel são verdadeiras?
Resposta: — As promessas são reais, mas não se deve acreditar que as pessoas que rezam o terço por rotina e sem procurar fazê-lo com perfeição, sejam logo tiradas do purgatório. Seria, um erro. São Miguel faz muito mais ainda do que promete, mas os que estão condenados a um longo purgatório, ele não os retira assim tão depressa! É verdade que a lembrança da devoção ao Santo Arcanjo alivia muito as almas, mas que sejam de todo libertadas do purgatório, não. Eu que o diga, eu posso bem servir de exemplo!… A libertação imediata só a terão as pessoas que trabalharam corajosamente para a sua perfeição, e que tiveram pouca coisa a expiar no purgatório.

A França é bem culpada, e infelizmente ela não está só! Neste momento não há um reino cristão que não procure aberta ou surdamente expulsar Deus do seu seio. As sociedades secretas e o diabo fomentam estas revoltas. É agora a hora do príncipe das trevas. Deus há de mostrar que só Ele é o Senhor único! Talvez não seja feito isto com doçura, e fará sentir o seu poder, mas nos próprios castigos Jesus é misericordioso. São Miguel há de intervir na luta pessoal da igreja. Ele é o chefe desta Igreja tão perseguida, mas que não será aniquilada como pensam os maus. Quando há de intervir São Miguel, eu não o sei. É preciso rezar muito nesta intenção, invocar o Arcanjo lembrando-lhe os títulos que tem, pedir-lhe a intercessão junto daquele sobre o qual tem tanto poder!
Que não se esqueçam da Santíssima Virgem! A França é o seu reino privilegiado. Ela o salvará. Fazem muito bem em pedir, por toda parte, rosários e terços. E esta oração é a mais eficaz nas necessidades presentes!
No purgatório nós não recebemos as indulgências que nos são aplicadas, senão à maneira de sufrágio e como Deus o permite, e segundo as suas divinas disposições. É verdade que não temos apego ao pecado, mas não estamos sob o reino da misericórdia, mas sob o império da justiça, e desta justiça recebemos o que Deus quer que nos seja aplicado.

(Maio) — Trabalhai sem descanso e com todas as vossas forças para a vossa perfeição. Tendes bastante firmeza de caráter para vencer todas as dificuldades que se opõe à vossa união com Jesus, até que chegueis lá onde Ele quer.
Vossa vida será um martírio perpétuo. Custa muito renunciar–se a cada instante. É um martírio contínuo, mas neste martírio se experimentam as mais doces alegrias. A alma sofre, mas aquele por quem ela sofre lhe concede a cada sacrifício, a cada renúncia, uma graça que a anima e encoraja a caminhar sempre avante, e a se entregar sempre mais. Nada agrada tanto a Nosso Senhor como ver uma alma que se esforça, não obstante todos os obstáculos que se encontram no caminho, para poder se entregar cada vez mais para a glória e pelo amor de Deus.
Estais aflita por ver que Deus é insultado em Paris, mas estas pessoas não sabem o que fazem, e Jesus se sente mais insultado e ofendido com os pecados que cometem as almas que lhe são consagradas e não são o que deveriam ser, do que com as injúrias daqueles que não são seus amigos.
Jesus quisera o amásseis com um amor de criança, isto é, com a ternura de uma criança que só quer agradar aos seus paizinhos queridos, e, no entanto, sois tão fria para com Jesus! Não é isto que Ele espera de vós, a quem tanto ama!
Não dirigis vossa pureza de intenção como Deus o quer. Assim, ao invés de oferecer de um modo vago as intenções, podeis fazer com mais fruto tendo as intenções bem determinadas. Por exemplo: quando tomais a refeição dizei: “Meu Jesus, alimentai a minha alma com a vossa Santa graça, assim como eu alimento agora meu corpo”.
Quando lavais vosso rosto ou vossas mãos: “Meu Jesus purificai a minha alma como eu o faço com meu corpo”. E assim em cada uma das ações. Habituai–vos a falar sempre a Jesus com o coração. Que Ele seja tudo no que fazeis ou dizeis.
É preciso nunca se desculpar. Que vos adianta que vos julguem culpada, quando não o sois? E se reconheceis uma falta, humilhai-vos e… silêncio! Não vos desculpeis nem em pensamento.

Só as ações feitas com grande amor, sob o olhar de Deus, para cumprir a sua santa vontade, só elas terão a recompensa imediata, ao passar pelo purgatório. Que cegueira há no mundo a este respeito!

O Manuscrito do Purgatório- 1879 parte II

1879 parte II

— Que distância há entre a terra que habitamos e o purgatório?
Resposta: — O purgatório está no centro do globo. A terra mesma não é um purgatório? Entre as pessoas que nela moram, umas aí fazem o seu purgatório inteiramente pela penitência voluntária ou aceita. Estas, depois da morte, vão diretamente para o céu. Outras, começam o purgatório na terra, porque a terra é um lugar de sofrimento, mas estas almas como não têm bastante generosidade, vão acabar o seu purgatório da terra no purgatório real.
— As mortes repentinas são uma justiça ou uma misericórdia de Deus?
Resposta: — Estas espécies de mortes às vezes são justiça e outras misericórdia de Deus. Quando uma alma tem o temor de Deus e Deus sabe que ela está preparada para comparecer diante d’Ele, para lhe poupar os horrores da angústia que poderia ter nos últimos momentos, Deus a retira deste mundo com uma morte repentina.
Às vezes também Deus toma estas almas por justiça. Não ficam de todo perdidas, mas sem os últimos sacramentos, ou recebendo-os às pressas, sem estarem preparadas para a última viagem, seu purgatório é bem mais doloroso e se prolonga muito.
Outros encheram a medida de seus crimes, abafaram a voz de todas as graças divinas e Deus as tira da terra a fim de que não excitem mais a vingança divina.
— O fogo do purgatório é um fogo como o da terra?
Resposta: — Sim, com esta diferença: o fogo do purgatório é uma purificação da justiça divina e o da terra é bem “doce” comparado com o do purgatório. É uma sombra junto dos grandes braseiros da divina justiça.
– Como uma alma pode se queimar?
Resposta: — Por uma justa permissão de Deus. A alma foi verdadeira culpada, pois o corpo nada mais fez que obedecê-la (que malícia, ter um corpo morto?); a alma sofre como se ela tivesse corpo para sofrer.
— Dizei-me o que se passa na agonia e depois? A alma encontra a luz nas trevas? Sob que forma se pronuncia a sentença?
Resposta: — Eu não tive agonia, como bem sabeis, mas eu posso vos dizer que no último momento decisivo, o demônio emprega toda a sua raiva em torno dos agonizantes. Deus, para dar mais mérito às almas, permite que elas sofram as últimas provas nestes últimos combates, sobretudo as almas fortes e generosas, a fim de que tenham um lugar mais belo no céu. Muitas vezes, no fim da vida, naqueles transes da morte, naquelas lutas terríveis contra o anjo das trevas (fostes testemunha disto…), saem elas vitoriosas. Deus não permite que uma alma que lhe foi dedicada na vida, pereça nestes últimos momentos.
As pessoas que amaram a Santíssima Virgem e a invocaram toda a vida, recebem dela muitas graças nas últimas lutas. Acontece o mesmo para as que foram devotas de São José e de São Miguel, ou de algum santo. Nesta hora, então, é que a gente é muito feliz de ter um intercessor junto de Deus neste momento penoso! Há almas que morrem tranquilas, sem nada experimentarem do que acabo de vos dizer. Deus tem seus desígnios em tudo. Faz ou permite tudo para o bem particular de cada um.
Como hei de vos descrever o que se passa depois da agonia? Não é possível compreender o que se passa então. Vou procurar explicar da melhor maneira que puder.
A alma, ao deixar o corpo, se encontra toda tomada, toda investida, se assim posso me exprimir, de Deus. Ela se encontra numa tal claridade, que num instante percebe toda a sua vida e o que ela mereceu. É em meio desta visão clara que se pronuncia sua sentença. Se é uma alma culpada, e por conseguinte merece o purgatório como eu, ela fica de tal maneira esmagada sob o peso das suas faltas que ficam para apagar, que ela por si mesma se atira no purgatório. A alma vê o bom Deus, mas está aniquilada na sua presença. É só então que a gente compreende o bom Deus, o seu grande amor pelas almas, e que desgraça é o pecado aos olhos da Majestade Divina! Eu vi também meu Anjo da Guarda.
Para vos dar a entender como é que São Miguel leva as almas ao purgatório, porque uma alma não se leva, eu vos digo que é neste sentido que ele está presente na execução da sentença.
Tudo quanto se passa no outro mundo é um mistério para o vosso!
— E quando uma alma vai direto para o céu?
Para esta alma a união começada com Jesus na terra, continua no céu, na morte, eis o céu, mas a união do céu é muito mais intima que a da terra.
Tendes muita razão de não gostar dos êxtases. É preciso aceitá-los quando Deus os envia, mas Ele não quer que a gente os deseje. Não são estas coisas que levam ao céu. Uma vida mortificada, e humilde, é muito mais para se desejar e é muito mais segura. É verdade que diversos santos tiveram revelações de Deus, que lhes dava isto depois de longos combates, e de uma vida de renúncia, ou ainda porque queria se servir deles para grandes coisas, tendo em vista a sua maior glória. Todavia, tudo isto se fez sem ruído, sem brilho, no silêncio da oração e quando eram descobertos, ficavam envergonhados e não falavam disto senão por obediência. Pelo que me dizeis, podeis ficar tranquila.
Eis como se pode conhecer quando uma graça vem de Deus.
Estas graças vêm como uma onda que vos surpreende num belo dia, como urna chuva em pleno dia claro, que se despeja sobre a alma, quando o céu parece mais sereno. Não se deve temer então haver procurado isto, pois nem se pensou nisto às vezes. Haveis de ter observado isto diversas vezes.
É muito diferente isto das graças que julgam serem dadas por Jesus, e, pelo contrário, não são mais do que trabalho da imaginação que as produziu. Estas devem ser temidas porque o demônio se aproveita, de um cérebro fraco, de um temperamento mole e de um juízo pouco equilibrado, e ilude estas pobres almas que entretanto não pecam, contanto que se submetam às pessoas que as dirigem. E posso vos dizer que há muitas destas neste mundo de hoje… O demônio procede assim para lançar a religião ao ridículo.
Poucas pessoas amam a Deus como Ele quer. Elas se procuram a si mesmas, julgando procurar a Deus, e sonham com uma santidade que não é verdadeira.

 — Dizei-me então em que consiste a verdadeira santidade?
Resposta: — Já o sabeis, mas já que desejais, vou repetir o que já foi dito diversas vezes.
A verdadeira santidade consiste em se renunciar de amanhã à noite, viver de sacrifício. Saber pôr de lado a toda hora o “eu” humano, deixar que Deus trabalhe como queira em nós. Receber, com uma profunda humildade, as graças que Ele nos dá, reconhecendo-se indigna delas. Estar quanto possível sempre na presença de Deus. Fazer todas as ações sob o divino olhar e não procurar outra testemunha para os próprios esforços. Ter a Deus como única recompensa, e todas as coisas que eu já vos disse. Eis a santidade que Jesus exige e quer das almas que querem viver só para Ele. O resto não é mais que ilusão.
Certas almas fazem, pelo sofrimento, o seu purgatório na terra; outras por amor, porque o amor tem também um martírio. A alma que procura amar verdadeiramente a Jesus, acha que, apesar dos seus esforços, ela não o ama na medida dos seus desejos. Isto é para a alma um martírio perpétuo, causado unicamente pelo amor, e não é um martírio sem grandes dores! É como já vos disse, um pouco daquele estado da alma do purgatório que impele incessantemente para Deus, seu único desejo, e se vê repelida porque sua expiação não está acabada!
— Se eu não tivesse falado e ninguém tudo o que me dizeis desde que estou vos ouvindo, qual seria o resultado? Sabeis que eu tenho um grande desejo de guardar segredo, guardar isto tudo só comigo?
Resposta: — Sois livre de o fazer ou não, mas se ainda não falastes disto, eu vos aconselho a que o façais, porque Deus nunca permitiu que a perfeição de ninguém viesse diretamente do céu. Ela habita na terra, e quer que na terra mesmo ela se aperfeiçoe, segundo os conselhos que recebe para isto. Fizestes bem em confiar o que vos custava tanto dizer. E demais, tudo isto não vem de vós, e Deus, que de tudo sabe tirar proveito para a sua glória, dirige tudo para proveito daqueles que Ele ama.
(Novembro-Dezembro) — O dia e a oitava dos Defuntos trazem uma alegria no purgatório e se livram muitas almas?
Resposta: — No dia dos Mortos muitas almas deixam o lugar de expiação para o céu, e por uma grande graça do Bom Deus, só neste dia todas as almas sofredoras, sem exceção, têm parte nas orações públicas da Santa Igreja, até mesmo as do grande purgatório. Entretanto, o alívio de cada alma é proporcionado ao seu mérito. Umas recebem mais, outras menos. Entretanto, todas aproveitam esta graça excepcional. Muitas almas, pobres almas, só recebem este único alívio pela justiça de Deus, durante os longos anos que passam no purgatório.
– Entretanto, não é no dia dos mortos que sobem mais almas ao céu. É na noite de Natal?
Há muitas coisas que eu vos poderia dizer, mas eu não tenho permissão.
É preciso que me interrogueis, porque então eu posso responder. Eu estou bem aliviada pelas orações do Reverendo Padre. Dizei-lhe que lhe agradeço pelas orações que fez e que mandou fazer por minha intenção. Eu rezo sempre por ele. Espero fazer mais ainda quando eu estiver no céu. Dizei-lhe também que eu sei que ele reza por mim e pelas almas do purgatório.
Por permissão de Deus há um sofrimento maior para as almas, quando as orações que se fazem por elas não lhes podem ser aproveitadas.
No purgatório não se recebem as orações da terra senão na medida em que Deus quer que sejam aproveitadas às almas. Depende da disposição de Deus.
Quanto ao tempo da nossa libertação, não sabemos nada. Se soubéssemos o fim dos nossos sofrimentos, seria um alívio, uma alegria para nós, mas não! Vemos bem que nossas dores diminuem quando a nossa união com Deus se torna mais íntima, mas em que dia? (segundo a terra, porque não há dias), e em que dia estaremos todos reunidos? Não o sabemos, é o segredo de Deus!…
As almas do purgatório não têm conhecimento do futuro, a não ser que Deus lhes queira dar isto. Algumas almas o possuem, umas mais, outras menos. Mas o que adianta saber o futuro para nós, a menos que se trate da glória de Deus e do bem de algumas almas?
Não se admirem se o demônio e seus satélites têm algumas vezes conhecimento de coisas que se realizam no futuro. O diabo é um espírito e, por conseguinte, tem mais astúcias e conhecimentos do que qualquer pessoa na terra, à exceção dos santos, aos quais Deus ilumina com suas luzes. Ele, o diabo, procura rondar por toda parte, procurando o mal. Ele vê o que se passa, no mundo, e segundo a sua sagacidade, pode prever coisas que se vão realizar. Eis a única explicação.
Desgraçados são aqueles que se entregam ao demônio e o consultam! É um pecado que desagrada a Deus, e muito! (Não está aí uma condenação do espiritismo, que muitas vezes é uma consulta ao diabo? – Nota do tradutor).
— As almas podem alguma vez se enganarem?
Resposta: — Sim, mas não quanto às coisas que existem, só quanto ao futuro. Pode acontecer, por exemplo, que Deus na sua Justiça queira castigar um reino, uma província, uma pessoa, é uma intenção que Ele manifestou. Todavia, se alguma pessoa daquele reino, daquela província pela oração ou por outros meios, desarma a Divina Justiça, Deus dará a graça, concederá a graça ou diminuirá o castigo, segundo as previsões da sua infinita sabedoria. Muitas vezes permite que os grandes acontecimentos sejam preditos antes ou os dá a conhecer a algumas almas a fim de que elas previnam e afastem o castigo. A misericórdia de Deus é tão grande, que Ele não castiga senão em caso extremo. Assim para aquela pessoa de que me falaste outro dia. Deus me fez conhecer que não lhe infligirá castigo, senão pela metade, se ela permanecer nas mesmas disposições. Eis como a gente pode às vezes parecer que se engana.
– Há muitos protestantes salvos?
Resposta: — Pela misericórdia de Deus, um certo número de protestantes se salva, mas o purgatório deles é longo e rigoroso. Eles não abusaram da graça, é verdade, como muitos católicos, mas não tiveram as graças insignes dos Sacramentos e outros socorros da verdadeira religião, o que faz com que a sua expiação se prolongue por muito tempo no purgatório.
Eu falo mais baixo do que de costume, porque há oito dias vós falais muito baixo com Deus na recitação dos Salmos. Quando rezardes mais alto, eu falarei também mais alto.
— Conheceis no purgatório a perseguição que está sofrendo a Igreja?
Resposta: — Sabemos que a Igreja está sendo perseguida e rezamos pelo seu triunfo, mas quando será ele? Eu o ignoro. Talvez algumas almas o saibam. Eu não o sei ..
No purgatório as almas não ficam só ocupadas com seus sofrimentos. Elas rezam pelos grandes interesses de Deus, pelas pessoas para abreviar seus sofrimentos. Louvam, agradecem a Nosso Senhor as misericórdias infinitas para com elas, porque o limite do purgatório e do inferno para muitas almas foi bem extremo, e por um pouco não se condenaram! Imaginai qual não há de ser o reconhecimento, a gratidão destas almas que foram assim arrancadas de Satã!
Eu não vos posso explicar como vemos nós a terra, de modo muito diferente do vosso modo de ver. Isto só se pode entender quando a alma deixa o corpo. Então a terra que ela acaba de deixar não lhe há de parecer mais do que um pontozinho no horizonte sem fim da eternidade que se abre para ela.
Eu recebo mais alívio de uma das ações de graças feita com uma grande união a Jesus, do que de uma oração vocal. O que Deus mais ouve? Tudo o que é feito com espírito interior. Quanto mais íntima é a união de uma alma com Deus, mais esta alma é ouvida. Uma alma intimamente unida a Jesus, é dona do seu Coração Divino. Deveis procurar sempre esta união que Jesus espera de há muito tempo de vós. Se quereis agradá-lo, eis o único meio: aproximar-se sempre mais do seu Coração, por uma grande atenção aos menores desejos da sua Vontade Santíssima. É preciso que Ele vos vire e revire como bem queira, sem nunca encontrar resistência da vossa parte. Então haveis de ver e compreender sua bondade!
Procurai trabalhar atentamente só por Deus. Não procureis outro para testemunha de vossas ações.
(8 de dezembro — 2 horas da tarde — Imaculada Conceição) — Ai! quantas vidas parecem cheias de boas obras e no entanto na hora da morte estarão vazias! Se soubésseis quão poucas são as pessoas que agem só por Deus e que praticam seus atos só por Deus! Na morte, então ai! quando a gente não está mais cego, quanto arrependimento! Ai! se refletissem algumas vezes no que é a eternidade! Que é esta vida comparada com este dia sem noite para os eleitos, e esta noite que não há de ter fim dos condenados! Ama-se tanta coisa na terra, apegam-se a tudo neste mundo exceto a aquele que unicamente deveria merecer nossa afeição e ao qual recusamos nosso amor! Jesus nos tabernáculos espera os corações que o amam, e não os encontra…
— No purgatório se ama?
Resposta: — Sim, mas é um amor de reparação, e se na terra nós tivéssemos amado a Deus como deveríamos, não seríamos tão numerosas e não haveria tantas almas no lugar da expiação!
— No céu Jesus é bem amado?
Resposta: — No céu se ama muito a Deus. Lá Deus é desagravado, mas não como na terra. Jesus deseja o amor na terra, na terra onde veio para se aniquilar em cada tabernáculo, a fim de que fosse mais fácil chegarem-se a Ele. E no entanto, não fazem isto, não o procuram nem amam!…
Eu vos disse que há almas que fazem o seu purgatório ao pé dos altares. Elas ficam ali pelas faltas que cometeram nas igrejas. Estas faltas que foram diretamente a Jesus presente nos tabernáculos, são punidas com muita severidade no purgatório. As almas que ficam diante do tabernáculo em adoração, lá estão em recompensa da devoção ao Santo Lugar. Elas sofrem menos do que se estivessem no purgatório mesmo, e Jesus, que elas contemplam com os olhos da alma e da fé ao mesmo tempo, lhes alivia com sua presença real o que elas padecem.